• Redação UPES

"ESTUDE PARA SER ALGUÉM": A SUBMISSÃO EDUCACIONAL AO SISTEMA CAPITALISTA

Há algum tempo tenho questionado e observado sobre como a sociedade brasileira fundamentaliza a educação e qual o papel empregado a ela de acordo com a famosa frase “estude para ser alguém”. Infelizmente, a ideia de educação em âmbito nacional restringe-se a uma área muito pequena, se comparada às amplas e vastas diretrizes proporcionadas através do contato direto com o verdadeiro papel educacional, uma vez que o arranjo social desenvolvido a partir do ponto de vista capitalista utiliza a educação como um conceito exclusivo de rendimentos e distancia-se da sua originalidade. Com certeza, quase todos já ouviram ou até mesmo repetiram a frase "estude para ser alguém". Eu também. E a dúvida que sempre permanecia e me levava à reflexão era sobre quem era esse "alguém". E com o tempo descobri. Percebi que para ser alguém, de acordo com o sistema estruturado com base em ideais capitalistas, era preciso a inserção em cursos tradicionais e o sucesso profissional com uma excelente remuneração, independente do desenvolvimento intelectual. Caso contrário o fardo do fracasso estaria estampado e exteriorizado em cada esquina pelos mesmos fracassados que eu. É interessante notar que o sistema educacional virou uma espécie de corrida por resultados e notas e, a partir desses quesitos, a classificação dos estudantes como bons ou ruins. Ou seja, o Brasil, que possui uma das maiores concentrações de renda e privilégios do mundo e com pouquíssimas oportunidades para os mais vulneráveis -- que são a maioria esmagadora da sociedade -- define o sucesso pessoal dos agentes sociais de acordo com parâmetros elitizados. Por essa razão, a educação para uma parcela significativa dos brasileiros é legitimada apenas quando as conquistas padronizadas são alcançadas. Porém, quando ela, em sua verdadeira missão, se estabelece como o objeto principal de informação, que questiona benefícios e estruturas sociais preconceituosas (racistas, machistas, patriarcais entre outros), os transmissores educacionais tornam-se desnecessários, extremistas e, como a ignorância costuma denominar, "mimizentos". Dessa maneira, a educação a serviço do desenvolvimento pessoal e social, de indagações sobre desigualdades e opressões naturalizadas pela sociedade é caracterizada como a personificação de exageros inúteis pela elite e por uma massa social homogeneizada, pouco interessada e ignorante sobre os problemas estruturais de nossa história. É triste notar tamanha alienação evidenciada na defesa de valores que vão na contramão das necessidades dos indivíduos que os reproduzem e com diretrizes ilusórias de sucesso, estabelecidas por uma classe que nada em vantagens sociais e que nunca experimentou dificuldades reais que a vida proporciona. Assim, o troféu "ser alguém", prometido por esse grupo, apenas pelo estudo e vontade, o qual não leva em conta as particularidades de cada estudante, é ilusório e cruel. Visto que a sensação de não alcançar o "sucesso" e nem corresponder às expectativas geradas pelo sistema, mesmo depois de toda dedicação, gera frustração, sentimento de fracasso, de inutilidade e, por vezes, desperta gatilhos para problemas psicológicos sérios e, infelizmente, em alguns casos, irreversíveis. Destarte, a influência do capitalismo gera uma competitividade irreal quando tratamos da finalidade educacional. A comparação entre os estudantes é um mito sobre meritocracia, -- uso o termo "mito" por não haver racionalidade quanto ao termo associado --- pois não há espaço para referir-se a méritos de conquistas em um território tão desigual quanto o nosso. É uma completa ilusão. Mais uma inventada pela elite. Pois, ao longo do processo de construção nacional, os mecanismos de poder concentraram-se nas mãos de um pequeno grupo, que parece viver ciclos viciosos e perenes, e se mantém ativo em seu posto por séculos intermináveis. Dessa maneira, o cenário mencionado, foi decisivo na formação de estruturas sociais de privilégios o que torna impossível admitir o uso da régua de méritos no Brasil. Contudo, a educação autêntica não está alinhada a resultados de identidades elitizadas. Ela segue outra direção. A função original trilha caminhos de amadurecimento e desenvolvimento, em um processo de desconstrução que busca a quebra de preconceitos enraizados e a democratização do espaço para o SER em sua pluralidade. A competência didática incita pesquisas sobre estruturas desiguais; a reflexão sobre regalias em detrimento da vulnerabilidade social; ela gira em torno do rompimento com padrões de opressão que estimulam discursos de ódio e que coloca as diversidades em campos marginalizados e vexatórios; e possibilita a vivência do verdadeiro SER ao ceder espaço para exteriorização de suas particularidades em um movimento de acolhimento e naturalização das diferenças. Portanto, a educação não é competitiva, ela acrescenta em cada indivíduo um pedaço da história daqueles que fazem parte da jornada educacional. Deste modo, o serviço prestado para sociedade foge do estereótipo elitizado utilizado, uma vez que, o ambiente escolar viabiliza a pluralidade dos estudantes e torna-se um local de expressões humanas incubadas pela arbitrariedade das instituições familiares, religiosas e profissionais. Além de credibilizar e promover lutas e resistências em favor das minorias e diversidades. Assim, usa-se da pedagogia para o ensinamento revolucionário pessoal, estabelece pontes de diálogos com quem somos e para quem somos e humaniza-se o contato direto com todas as possíveis relações sociais, ou seja, oferece espaço para o SER em suas individualidades. Logo, a finalidade educacional deve estar a serviço das pessoas para as pessoas e não das pessoas para o mercado e estereótipos ilusórios. A função prioritária da educação vai muito além das metas de resultados profissionais, ela deve, em primeiro momento, estar à disposição da construção do senso crítico, da naturalização das pluralidades e de ser um ambiente capaz de dar liberdade para o SER individual. E então, a partir desse cenário, a busca por aprovações e crescimento profissional. Assim, a necessidade da prioridade educacional -- desenvolvimento pessoal -- não afasta e descredibiliza as conquistas alcançadas através dela, uma vez que a rivalidade entre evolução pessoal e resultados não existe no campo educacional, pois são complementares. O que existe é a priorização pelo primeiro fundamento. Posto isso, a ideia de "ser alguém", mencionado logo no início, alinha-se ao desenvolvimento do pensamento crítico e plural, no reconhecimento e encontro com quem somos genuinamente, longe de qualquer estereótipo ou pressão social, da manifestação do nosso verdadeiro ser aprisionado em medos e julgamentos externos e afasta, em primeiro momento, da ótica capitalista de resultados. Educação não é mercadoria. Os estudantes e professores não são artificiais e, por isso, os resultados individuais não devem ser comparados e postos na frente da evolução coletiva social. A EDUCAÇÃO É PARA ATENDER PESSOAS E NÃO A ESTEREÓTIPOS CAPITALISTAS.


Sobre o autor : 
Renato do Santos Sant 'Anna, membro da equipe de redatores da UPES e estudante secundarista. Defensor da equidade social e de uma nação humanamente progressista. 











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